Gênero Conto

Quem conta um conto, aumenta um ponto...
O conto se trata de um gênero textual, do tipo NARRATIVO. Sua estruturação mantém, portanto, os elementos que são considerados essenciais para essa composição, ou seja: foco narrativo, personagens, tempo e espaço.
Normalmente, os contos são caracterizados por conter narrativas curtas e abordarem um único conflito. Desse modo, é a trama (ou enredo) que possui a maior parte do foco, visto que o desenvolvimento discorrerá entorna dela. É natural, também, que a história contenha poucos personagens, pois do contrário, seria difícil desenvolver todos, arriscando fugir da estrutura do gênero.
Inicialmente, os contos surgiram a partir da tradição popular de contar histórias, por meio da oralidade. Os povos mais antigos já faziam uso desse recurso para as mais diversas finalidades, desde entreter as pessoas, até provocar-lhes reflexões acerca das situações que ocorriam na sociedade.
O conto possui uma estrutura fechada e objetiva. As histórias possuem começo (referente à apresentação da história, dos personagens - em particular, o protagonista -, onde e quando a história se passa, e às vezes, algum ponto relevante que será desenvolvido no decorrer do texto), meio (a parte em que o conflito se desenvolve, provocando uma leve sensação de ansiedade no leitor, para saber o que virá depois), um clímax (que se refere ao momento mais tenso da história, é o "tudo ou nada" dentro da narrativa, onde qualquer coisa pode acontecer, conduzindo o final para algo que pode ser o que esperávamos, ou não), e um fim (momento em que o leitor conhece o desfecho, o conflito passa a ser resolvido, e o final poderá causar diferentes sensações para quem acompanhou a história, já que este poderá ser feliz, ou também triste, engraçado, surpreendente, trágico, dramático, etc. Dependerá da forma como o leitor se conecta com os personagens e com a trama).
É importante lembrarmos que, em se tratando de conto, o autor detém a liberdade para criar o universo em que se passará a história, da maneira que desejar. Portanto, aventuras fantásticas envolvendo heróis, cavaleiros, princesas e monstros, são algo perfeitamente aceitável dentro da narrativa.
Com o passar do tempo, o gênero conto sofreu subdivisões, que acabaram por especificá-lo ainda mais, fazendo com que, assim, surgissem vários tipos de conto. Temos, por exemplo, o mais famoso deles, que é o Conto de fadas; no entanto, temos ainda, os contos fantásticos, contos de terror, contos de ficção… Todos mantém a mesma base estrutural, mas carrega diferenças no desenvolvimento de seus enredos.

🡆 CONTO DE FADAS: Geralmente, apresenta protagonistas que são bonzinhos ou heróis, e vilões que são os causadores do problema ou do conflito que o protagonista terá de resolver. Esse tipo de conto costuma se iniciar com a expressão "Era uma vez", e terminar com um final feliz para o protagonista. Nesse tipo de trama, é comum nos depararmos também com seres encantados, como fadas e bruxas, ou ainda com animais que falam, mas isso não se trata de uma regra.
🡆 CONTO INFANTO-JUVENIL: Um tipo de conto com linguagem simples, destinado para crianças e adolescentes e, que pode trazer características ou elementos que façam parte do universo do público alvo, como situações envolvendo a família ou a escola, por exemplo. Também costuma conter uma lição de moral implícita no texto.
🡆 CONTO DE FICÇÃO CIENTÍFICA: Sua composição baseia-se em elementos referentes à tecnologia, percepções científicas, ideias futuristas ou espaciais.
🡆 CONTO DE TERROR: Contos de terror são marcantes por carregar características como suspense, e situações que possam provocar medo ou, às vezes, um certo desconforto no leitor. Normalmente, trazem personagens e ambientes assustadores, como casas mal assombradas, fantasmas, monstros, etc. A trama quase sempre se passa envolvendo algum personagem inocente, que desconhece o perigo eminente ao qual está sujeito.
🡆 CONTO FANTÁSTICO: Trata-se de uma narrativa, cujos personagens e cenários, se aproximam da realidade; porém, o conflito e as situações que se sucedem são de caráter absurdo, isto é, algo que seria impossível de acontecer na vida real. Ao mesmo tempo que esse tipo de história causa uma sensação de estranheza para o leitor, ela também gera um tipo de identificação.
🡆 CONTO POPULAR: São contos que narram histórias carregadas de tradição, contadas de geração para geração. Muitos desses contos não possuem registos datados de seus surgimentos, o que significa que não se sabe por quem ou quando essas histórias foram criadas.
Que tal analisarmos agora um exemplo de conto? Eu gosto bastante desse! Trata-se de um pequeno conto infantil, escrito por Luís Norberto Pascoal, e promovido pela Fundação Educar D. Pascoal.
O PÁSSARO SEM COR
Luís Norberto Pascoal
Era uma vez um pássaro que nasceu diferente dos outros. Ele não tinha cor. E todos o chamavam de pássaro sem cor. Sempre que o chamavam assim, ele ficava triste. E ainda brincavam:
— Ah! Se não tem cor, não é pássaro.
Ele andava e voava de lá pra cá, sem saber o que fazer. Um dia, encontrou um velho pássaro muito inteligente e capaz de explicar coisas difíceis. Perguntou-lhe:
— Por que não tenho cor?
— Porque você é especial, um pássaro mágico! — respondeu o velho pássaro — Você tem mais cores que os outros, mas ninguém ainda conseguiu vê-las. Descubra a mágica que existe em você e será o mais colorido de todos!
— Mas como, grande mestre? — perguntou o pássaro sem cor. Como vou descobrir esse segredo mágico?
E o velho pássaro sábio disse:
— Descubra-se! Saia caminhando e voando. Veja o que você pode fazer pelos outros e como deixar o mundo melhor. Aí, saberá o quão colorido e belo você é.
O pássaro não entendeu direito, não sabia o que fazer, mas resolveu seguir o conselho.
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✓ Note que nesse primeiro momento, conhecemos os personagens principais (o Pássaro Sem Cor e o Pássaro Velho), o conflito (o fato de outros animais rirem e fazerem piadas porque o pássaro não tinha cor) e, perceba também que, neste texto, o tempo e os cenários ainda não foram apresentados. Vejamos o desenvolvimento da história:
Caminhando e voando, viu alguém que precisava de ajuda, que se afogava e chamava:
— Por favor, alguém me ajude!
O pássaro sem cor saiu à procura de ajuda, porque um menino se afogava. Quando foi salvo, disse:
— Nossa, PÁSSARO VERMELHO, que maravilha! Você é um anjo! Quando vi você, sabia que me salvaria.
O pássaro sem cor ficou assustado. Era a primeira vez que alguém o chamava de vermelho. Perguntou:
— Por que você me chama de vermelho, se não tenho cor?
E o menino disse:
— É lógico que você tem cor! E é linda! Você é vermelho, a cor da vida, a cor do sangue!
E pássaro realmente estava vermelho. ele agradeceu e disse que ajudar era sua obrigação, e continuou seu caminho.
Logo depois, o pássaro viu uma fumacinha no horizonte e voou para lá. Uma árvore lhe pedia ajuda:
— Pássaro, me ajude! Começou a pegar fogo na floresta e eu não sei como apagar. Você pode encher seu bico de água no rio e jogar um pouco aqui?
Correndo e voando muito rápido, foi até o rio várias vezes, encheu o bico de água e jogou nas árvores que pegavam fogo. Foi e voltou muitas vezes, até que o fogo se apagou. A árvore agradeceu, dizendo:
— Que bom que você passou pelo meu caminho, PÁSSARO VERDE! Você protege a natureza, é amigo das árvores.
O pássaro olhou para o próprio corpo e viu que, de fato, estava verde. Ele disse que só tinha cumprido o seu dever e continuou seu caminho.
Seguiu voando, até que encontrou uma flor muito linda, bem amarela, que gritou:
— Pássaro, venha até aqui, por favor!
Ele foi até lá e ela disse:
— Tem um monte de bichinhos querendo comer minhas folhas, e só você pode me proteger! Dê um susto neles, de modo que fujam e nunca mais voltem, e aí eu poderei reluzir a luz amarela e deixar o mundo mais colorido.
Ele imediatamente cantou tão alto que os insetos saíram correndo. A florzinha amarela disse:
— Obrigada, PÁSSARO AMARELO!
E ele respondeu:
— De nada, só cumpri o meu dever de proteger as flores.
O pássaro sem cor já nem sabia mais que cor tinha! Havia sido chamado de VERMELHO, de VERDE, de AMARELO. Mas continuou o seu caminho, sempre ajudando quem precisa, ou avisando quando havia perigo. Em cada lugar, era chamado de outra cor. AZUL quando salvou o mar, ROSA quando salvou os botinhos cor-de-rosa, enfim, todas as cores.
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✓ A partir deste ponto, podemos observar a história do pássaro sem cor começa a se desenvolver; outros personagens, como o menino, a árvore e a flor são apresentados ao leitor.
Outro detalhe que podemos observar a partir dessa parte da história, é que já se torna possível sabermos em qual cenário ela se passa: no trecho em que o pássaro encontra a árvore, ela diz: "Começou a pegar fogo na floresta e eu não sei como apagar", ou seja, o conto se desenvolve em meio a uma floresta.
Contudo, mesmo que esta afirmação não estivesse explícita na fala do personagem Árvore, poderíamos deduzir que se tratava de uma floresta, pois os personagens apresentados são animais, plantas ou elementos da natureza.
Já muito intrigado, porque agora todo mundo o chamava de PÁSSARO COLORIDO, ele voava pelas montanhas, quando avistou um pássaro indo em direção à rocha. Parecia meio cego pelo sol, não percebendo o risco que ele corria. Ele saiu em disparada e desviou o grande pássaro do acidente iminente.
Passado o susto, o pássaro, que era muito bonito, disse:
— Pássaro sem cor, hoje você me salvou e ainda me deu uma lição. Eu debochava de você porque eu era lindo e você, feio. Agora você é o mais belo dos pássaros, tem mais cores do que eu e é mais respeitado. Como conseguiu isso? Não tinha cor alguma e, hoje, comparado a você, me vejo muito menos brilhante. Como conseguiu essa mágica?
— Puxa, que elogio mais bonito! — agradeceu o jovem pássaro. — Mas como tem certeza de que sou o mais colorido?
— Olhe-se nas águas do lago — respondeu o outro pássaro — e veja quantas cores lindas você tem! Tão jovem e já é o mais respeitado de todos!
✓ Aqui, nos deparamos com o clímax da história: o protagonista, aqui, demonstrou a superação de vários desafios e, nesse ponto, salva do perigo um dos animais que fazia deboche dele.
Além disso, o texto explicita que o personagem "Pássaro sem cor" agora, é um "Pássaro Colorido", o que podemos entender como o auge da evolução ou o amadurecimento do personagem, após superar seus obstáculos.
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Os dois se despediram, agradecendo um ao outro e, de repente, apareceu aquele velho pássaro sábio. O jovem, agora muito feliz, perguntou ao sábio:
— Como soube que eu era mágico e tinha todas as cores?
E o velho disse:
— Você tinha a bondade nos olhos, a inteligência nas suas perguntas e a vontade de nunca dizer "não" para quem pede ajuda. Eu tinha certeza de que, caminhando e voando pela vida, você iria ajudar muita gente e salvaria muitas coisas, e se tornaria o mais belo e respeitado de todos os pássaros. A mágica da vida é esta: aquele que quer e sabe fazer o bem, que tem o desejo de ajudar os outros, sempre será o mais querido. Parabéns, pássaro sem cor! Você é o mais belo porque descobriu as cores da bondade com inteligência e determinação. Os pássaros coloridos são aqueles que buscam ajudar as pessoas próximas. A cada contribuição, eles se tornam mais lindos e respeitados por seus grandes exemplos de sabedoria e sua capacidade de pensar no próximo.
✓ Finalmente nos deparamos com o desfecho da história. Nesse caso, temos um final feliz e uma lição de moral, cujo objetivo é provocar no leitor uma reflexão sobre a importância de ajudar o próximo, tema esse que foi desenvolvido no decorrer de toda a narrativa.
Por se tratar, ainda, de um texto dedicado a um público infantil, notamos que a linguagem utilizada pelo autor é bastante simples, de maneira que evita qualquer tipo de ambiguidade e facilita o entendimento do texto pela criança.
